O feminismo e a decoração

Postado por: Manu Mitre
09 de August de 2013

A capa da revista TPM deste mês deu o que falar. O editorial da revista explica a ironia que foi feita às falsas promessas e soluções mágicas vendidas pelas típicas revistas femininas para que a mulher alcance a suposta felicidade. Na capa principal a atriz Alice Braga está super produzida e photoshopada, com aquela cara de linda e poderosa, rodeada de manchetes absurdas como “Bulimia do bem” e “274 roupas incríveis para virar outra pessoa”. Em seguida a capa real traz a mesma mulher, mas com uma roupinha leve, cabelos mais naturais e a cara mais limpa, toda descontraída e sorridente, parecendo gente como a gente. E um título interessante: “Pra que mentir?”.

decoração feminista

Muita gente adorou e se identificou com a crítica feita a esse modelo de mulher que temos que engolir por aí e nos causa frustrações constantes. Mas li um post que trouxe uma outra visão, bem interessante. A de que a revista continua propondo um modelo inatingível de mulher: linda, magra, sem uma espinha no rosto ou ponta dupla no cabelo, rica e feliz, só que sem fazer muito esforço, assim ao natural, mesmo. Será que isso é mais realista que o modelo criticado pela própria revista? Ainda estou pensando a respeito. E isso tem tudo a ver com o que eu falo de decoração por aqui, por isso trouxe o assunto pra discutir com vocês.

Todos nós precisamos de modelos. Minha filha adora calçar os meus sapatos e gosta mais da batata que está no prato do pai, mesmo que a do prato dela tenha saído da mesma panela. Quem não teve um ídolo do seu esporte preferido e se inspirava nele para melhorar cada vez mais e, quem sabe, um dia, conseguir ir a uma Olimpíada e orgulhar toda a família? A gente admira o irmão mais velho, que faz coisas que a gente não consegue ainda, imita o jeitão daquele amigo popular na tentativa de também ser o cara mais legal da turma, tira xerox do caderno do colega cdf pra estudar pra prova, cola num chefe bacana com quem a gente quer se parecer para ter o mesmo sucesso. Quem não muda de sotaque depois de alguns dias de férias em outro estado? Sim, a gente tem modelos, a gente imita os outros, todo mundo.

Mas isso não é ruim, relaxa. Nós somos seres sociais, portanto buscamos aceitação e identificação com o grupo, queremos ter a sensação de pertencer a alguma tribo. Os outros são nossas referências, nossos exemplos concretos do que é ser gente, do que é viver, do que é nossa cultura. E a gente se constrói e se inventa seguindo esses inúmeros e tão diversos modelos ao longo da nossa vida. Mas, vale ressaltar, partimos de nós mesmos. De nossas capacidades e limitações, de nossa realidade, do jeito que nosso corpo e nossa cabeça funcionam. Nós escolhemos no que queremos ou não acreditar, temos o poder de rejeitar modelos que não nos atendem, combinar diferentes referências e formar um novo modelo – único, pessoal e intransferível – o de nós mesmos. Original, genuíno, cheio de personalidade, bem realista. Imperfeito? Sempre. Assim como tudo que é real.

Capas de revistas trazem modelos, sim. De beleza, de estilo de vida, de soluções de arquitetura e decoração. Algumas revistas (ou blogs) vão priorizar modelos super produzidos, outras vão mostrar cenas mais simples ou mais próximas da (sua) realidade (lembre-se que essa também não é a realidade de todo mundo), ainda há as que vão te provocar com sonhos inatingíveis. Dificilmente uma editora vai bancar uma revista com fotos de uma casa bagunçada,  mal cuidada, com móveis feios. Tem cantos da minha casa (similares aos das casas de todo mundo, tenho certeza) que nunca estampariam capa de nenhuma revista de grande circulação, por mais realista que ela seja, por maior identificação que todo mundo sinta com minha desordem ou desleixo. Ninguém quer mostrar nem ver esse lado, ele não inspira ninguém. Não é algo que as pessoas queiram aprender ou imitar, fazer de modelo.

Por isso cabe a você a tarefa de ser fiel a quem você é e filtrar dentre essas propostas de modelos os que te interessam, pinçar as referências que fazem sentido para a sua vida e criar o seu próprio estilo. Cheio de influências externas, talvez modismos, mas que partiu essencialmente de você. E por isso ele tem a sua cara, é também único, pessoal e intransferível. Já falei por aqui do que eu considero uma decoração brega. Repito: “não tem nada de mais bom gosto do que ser autêntico, do que respeitar quem você é“. Não se incomode tanto com fotos de casas que te pareçam irreais, e de projetos que sejam inatingíveis para você. Aprenda a extrair sempre o que te interessa de tudo o que vê e a ignorar o que não fazem os seus olhos brilharem e os sininhos baterem na sua cabeça. Modelos são referências apenas, sua liberdade está salva, a escolha será sempre sua. Exerça seu poder de ter seu próprio estilo, é uma delícia!

E, voltando à capa da TPM, acho que é meio óbvio, mas eu te conto: sou feminista. Feminista contemporânea. Que acredita e luta para que cada mulher tenha liberdade para fazer suas escolhas e ser quem ela é sem ser julgada como menos mulher por qualquer motivo que seja.

Categorias: Decoração, Inspiração
Veja Também
  1. Dedé
    09/08/2013

    Amei!!! Sua linda! :)

  2. Bel Herbetta
    Bel Herbetta
    09/08/2013

    Também amei Manu!! E amei o questionamento do link e a comparação com revistas de decoração, as nossas casas… Enfim, tá saindo fumacinha aqui da minha cabeça, se esse era o seu objetivo, conseguiu!! hahhaha…

  3. Marcelle
    09/08/2013

    Manu de Deus! Você me inspira!!! rs Pq vc é modelo de gente do bem! Adorei e pensei: Porque não escrevi isso antes!!

    • Manu Mitre
      Manu Mitre
      09/08/2013

      Ô, Marcelle, que bom! Agora escreve do seu jeito, com certeza tem muuuuuito mais pra se explorar sobre este assunto ;-)

  4. Gabrielli
    10/08/2013

    Adorei o post e conhecer o site. Não conhecia e me apaixonei.

    Adoro a revista e curti a capa, acho válido tocar no assunto de tempos em tempos. Não dava também pra tocar nesse assunto e colocar uma mulher fora do padrão na capa, até porque o povo não gosta. Ninguém esquece o quanto a Preta Gil foi crucificada por ter feito a capa do cd nua. E não tem muito tempo a Betty Faria foi crucificada por usar biquini. E até que a Alice é uma mulher normal, é bonita, mas poderia ser qualquer mulher que se cuida, não tem aquelas belezas do olhão azul e o mega hair loiro platinado. Acho que ela representa bem a mulher brasileira (salvo por usar 38, 36).

    A mulherada precisa ser menos neurótica. Tu não vê homem sofrendo pelo tanquinho do Cauã Reymond. Alguns seguem o exemplo, outros nem ligam. Nós que precisamos nos gostar mais…

    • Manu Mitre
      Manu Mitre
      11/08/2013

      Concordo, Gabrielli. Mas chegar nesse nível de desprendimento e autoestima estando rodeada dessas referências é trabalhoso, né?

  5. Juliana Amado
    26/08/2013

    Muito bacana esse post, Manu. Você adora colocar a gente para pensar, refletir, né?
    É impossível não ter um modelo, a gente aprende muito sobre o mundo e sobre nós mesmos com essas trocas. Trocas culturais, de percepção, de experiências. E quanto mais a gente sabe, quanto mais a gente se conhece, maior a chance de nos identificarmos e sermos autênticos.

    Beijos!

    • Manu Mitre
      Manu Mitre
      26/08/2013

      Ju, pensar é a coisa mais legal que a gente pode fazer na vida :)

  6. Oi, Manu! Tudo bem?

    Conheci o seu site através do DCoração e me encantei, tanto que já adicionei aos favoritos e estou curtindo a página. Eu faço Engenharia Civil e tenho um blog também, que fala de tudo um pouco, mas estou tentando focar na decoração, uma paixão recente que eu descobri. Estou fazendo cursos e lendo bastante para aprender mais sobre essa área, e tenho me encantado cada vez mais. Por isso amei o seu blog!

    Li o texto e ele me fez pensar bastante. Vou ler com calma o da Juliana depois também. Realmente, é até engraçado porque eu acabei de escrever um texto sobre como somos influenciados a ser de uma determinada forma por todos os lugares. Criaram um ideal de mulher perfeita e, cada vez mais, as mulheres estão buscando ser esse ideal. A mulher magra, linda, loira, alta, peituda, bunduda… A magreza, por aqui, nas redes sociais, já se tornou uma obsessão, parece. Os acontecimentos recentes me fizeram pensar bastante nisso. E isso vale para tudo na vida: ou você é de um jeito, ou você não faz parte de nada.

    Na decoração também é bem assim: nas revistas te mostram um ideal que vai bem longe do que você, eu, temos em casa. Mas é como você falou: na vida, nosso corpo, nossa casa, temos que aprender que aquilo que é bom para nós não necessariamente é bom para as outras pessoas. Precisamos aprender a nos aceitar mais, aceitar quem somos, o nosso corpo, as coisas que temos, e que ninguém é igual a ninguém. Ter um ideal, um herói, um modelo, é sim, muito bom e importante, mas é preciso conhecer os limites: é bom quando aquilo te move para frente e te faz crescer. Do contrário, não.

    Enfim, vou parar de escrever se não vou sair daqui com um livro. kkkkk

    Um beijo,
    Inara
    {www.lerdormircomer.com.br}

    • Manu Mitre
      Manu Mitre
      30/08/2013

      Oi, Inara
      Li seu post sobre o assunto e concordo super, adorei seu blog também!
      E bem vinda ao mundo da decoração sem regras e modelos irreais :)

  7. Paula
    31/08/2013

    Tb conheci seu blog pelo dcoração e estou amando! Tenho flertado com design de interiores e minha idéia de decor é mto como a sua: livre, baseada nas possibilidades e reais necessidades das pessoas. Acho q não tem lugar melhor do q a casa da gente pra estar rodeado daquilo que nos encanta realmente e não apenas do q ficou lindo na revista X e Y ou na casa de fulano e sicrano.

    Sobre a capa da revista eu amei a capa verdadeira!!! Sem ressalvas! Não concordo q a revista está tentando enfiar um novo modelo menos gritante mas igualmente inatingível! Eu particularmente não acho que ser linda, magra, sem uma espinha no rosto ou ponta dupla no cabelo, rica e feliz é um modelo ruim de se seguir!

    O problema é como as pessoas encaram modelos e objetivos hj em dia. TUDO vira paranóia! Tipo, ser magra todo mundo sabe q é saudável mas hj vc não vê as pessoas querendo perder aquele peso extra q faz as costas doerem ou as roupas antigas não caberem mais. Qdo se fala em ser magra, só serve se for vestir 36! ¬¬ ah peraí né? Bom censo, cadê?!

    Acho q nenhum modelo proposto seria problema se as pessoas aprendessem a lidar com a idéia de modelos em si. Acho q seria interessante lançar uma campanha pras pessoas imprimirem frases no sentido “Enjoy the ride” e espalharem pela casa pra se lembrarem que na frase “tentar e conseguir” a parte mais importante e a que deve ser o foco e no TENTAR! Felicidade é o caminho e não a chegada! Se o objetivo é não ter nenhuma espinha nem ponta dupla, deve-se pensar o qto é gostoso usar creminhos e fazer auto-massagem, por exemplo. Se o objetivo é ser magra, deve-se manter o foco em como o dia flui legal qdo a gt acorda e faz um exercício físico ou qdo a gt almoça e não fica com a sensação de ter engolido um elefante, por exemplo.

    ACho q o comentário ficou mto grande e não tenho certeza se me fiz entender XD Mas é isso! Enjoy the ride PLMDDS! rsrsrs Bjo

    • Manu Mitre
      Manu Mitre
      02/09/2013

      Isso aí, Paula! Mais amor próprio, mais alegria e menos neurose! Mas pra conseguir tudo isso, é tão difícil, né?

  8. camila lacerda
    31/08/2013

    Oii Manu, seu post ficou muito bom mesmo;
    Infelizmente até hoje querer porque querem idealizar a mulher perfeita, mas isso não existe. Beleza é muito relativa.

    Chá de Calmila
    FAN PAGE

  9. Ótimo texto! Bem escrito e com bons argumentos. Acho tão triste quando alguém abre mão dos próprios gostos em sua própria casa por se preocupar com o gosto dos outros em relação à isso ou aquilo. Se a nossa própria casa não tiver a nossa “cara”, o nosso estilo, o que mais vai ter, não é? Tá de parabéns!